Terreiro de Umbanda Vovó Catarina

Terreiro de Umbanda Vovó Catarina
Terreiro de Umbanda Vovó Catarina

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


O ritual do amaci na Umbanda 

A Umbanda tem seus rituais e cerimônias próprias e conhecer essa ritualística faz com que não  confundamos com rituais de outras religiões, como o candomblé por exemplo, religião que causa mais confusos e misturas com nossas práticas. Até porque muitos zeladores de Umbanda têm suas iniciações no Candomblé e acaba importando rituais muito distintos dessa crença para a Umbanda. Não entremos no mérito de certo ou errado tal mistura, mas entender que existe essas incorporações é importante para entendermos nossa própria crença. Neste texto vamos falar sobre o amaci.

Este é um ritual bem típico da Umbanda que tem o objetivo de fortalecer o médium através da lavagem de sua coroa (cabeça) com sumo de ervas. Essas ervas geralmente são consagradas a Oxalá e específicas para fins de aplicação na cabeça. Porém aos médiuns consagrados a um orixá, pode incluir ervas de seu Orixá. Mas isso varia de casa pra casa. O ritual consiste de evocações, cânticos, podendo incluir oferendas ou não e um período de descanso antes da liberação do médium.

O amaci propriamente dito diz respeito ao preparado de sumo de ervas, mas geralmente a palavra é associada ao ritual em si na Umbanda. Porém em outros segmentos religiosos, pode-se empregar a palavra para referir-se apenas ao sumo das ervas.  Não existe “receita” nem passo a passo do ritual, que isso irá, novamente, depender de terreiro para terreiro e suas raízes e escolas umbandistas. Existem tradições que usam além do sumo de ervas, bebidas votivas aos orixás, como guaraná, sidras, cervejas. Porém nem todos concordam com essas aplicações. E percebe-se que boa parte das casas adota apenas o sumo de folhas sem a presença de bebidas, principalmente as de teor alcoólico.
O amaci pode também estar incluso em obrigações, como parte dos rituais pertinentes de uma coroação por exemplo.

Um alerta sobre ervas: as pessoas autodidatas costumam ler e pesquisar em livros e na net sobre ervas e não é muito raro buscar ervas votivas a orixás e fazer banhos para os mais diversos fins. Isso não é aconselhável. Primeiro que existem ervas expostas nessas relações de internet que não são para banhos, além de ter ervas que não são para serem usadas na cabeça. Não é porque uma erva pertence a Oxalá, a Yemanjá que pode ser ministrada na cabeça para banhos. Fazer amaci para aplicar na coroa alheia, ou em si mesmo, é algo de profundo fundamento que somente pode ser feito por um zelador de Terreiro.

Ana Araújo 


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


As entidades de Umbanda e suas identidades


Passei alguns anos sendo moderadora de comunidade sobre mediunidade e umbanda, e um assunto que sempre surgia era sobre a identidade de entidade A ou B. Pessoas perguntando sobre uma determinada entidade, querendo saber suas cores, roupas, bebidas, formas de trabalho, personalidade e principalmente sua história de vida.
Creio que esse fato se dê pela ocorrência grande que há de livros e “lendas” espalhadas em nosso meio sobre estórias de algumas entidades. Assim como há dos Orixás e divindades africanas. Mas esclarecer alguns pontos, acho de extrema importância. E um deles é a diferença entre mitos dos Orixás e lendas e estórias que ouvidos sobre entidades.
Os mitos que circulam em nosso meio – maioria sobre o panteão yoburá – são ocorrências a serem estudadas no que entendemos como mitologia. São narrações que remetem a construção cultural e social de um povo, assim como suas crenças, cosmogonia, modo de vida e uma relação entre o homem e o divino. Sendo assim o mito é uma forma  ágrafa de repassar para gerações futuras a essência sócio-cultural e espiritual de um determinado grupo étnico. Através dos mitos, adurás (rezas) e orikis (invocações e encantamentos) é que hoje se torna possível organizar um culto religioso as divindades africanistas; base de todo o Candomblé dentro de cada raiz ancestral e no caso, étnica ao que ele se refere, seja ela banta, nagô ou fon. Sei que muitos mitos que circulam hoje foram “criados” contemporaneamente e não correspondem a uma origem legítima da cultura africana. Mas as casas matrizes do culto as divindades, as quais descendem todos os núcleos de candomblé, possuem em seu acervo as itans (mitos) transcritas e estas possuem códigos numéricos que garantem a sua legitimidade.
Já as estórias contadas em livros, revistas e no boca a boca sobre as entidades, tem teor completamente diferente e muitas delas não passam de lendas, invenções, fantasias e divagações. Algumas podemos dizer que tem um caráter real. Porém estas, são histórias de passagens encarnatórias de um espírito que “baixa” sob o nome de Tranca Rua, contou sobre sua individualidade espiritual. Ela não serve para outros Trancas Rua, porque na verdade; Tranca rua diz respeito a um agrupamento imenso de espíritos que se apresentam nos terreiros afro-ameríndios espalhados pelo Brasil, sob mesmo nome. Então podemos entender que Pai Joaquim, Caboclo Tupinambá, Caboclo Treme Terra, Cigana Esmeralda, Maria Mulambo, e todos os nomes representam uma COLETIVIDADE e não uma individualidade. Logo, se um Pai Joaquim chega num terreiro e quer relatar sua história de vida, isso diz respeito exclusivamente aquele espírito em particular e a mais nenhum outro, mesmo que use o mesmo nome. Quantas Denises temos no mundo? Muitas. Quantas Denises da Silva Sousa? Muitas também! Mas se eu pegar uma Denise da Silva Sousa e pedir pra ela contar sobre sua trajetória de vida, seu jeito de ser, ela passa a ser única entre as demais Denises da Silva Sousa que existem no mundo. Da mesma forma é um espírito que baixa sob o nome de Maria Conga e fala sobre a trajetória de vida que teve quando encarnada. Não podemos pegar esses acontecimentos e atribuir a mais nenhuma outra Maria Conga e a mais nenhum outro espírito no mundo. Pois cada ser é único e mantém sua individualidade, mesmo após sua passagem para o plano espiritual. 

                                                                               Ana Araújo 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Médiuns de Umbanda e a escolha de seu exercício!
Saber o porquê está e para que está


Um médium de Umbanda precisar ter bem definido em sua cabeça essas duas situações. Saber por que está ali, define bem o seu papel dentro do Terreiro. Saber para que, dá uma diretriz e foco que faz-se necessário para um desenvolvimento sério e centrado na realidade e não na “fantasia juvenil” que muitos tem ao colocar o uniforme de Umbanda; de que é bonito, é legal ter entidades poderosas e fortes que ajudarão as pessoas a resolver todos os seus problemas. Ser alguém requisitado e falado de que tem lindas e fantásticas entidades. Acreditem; muitos ingressam com tais expectativas. 
Sempre defendo e morrerei defendendo que ninguém é OBRIGADO a “cuidar disso ou daquilo”. De entrar para Religião A ou B. Se somos OBRIGADOS, é porque perdemos a opção de escolha, pois quem tem obrigação, não tem escolhas. É obrigado a cumprir tal tarefa, daí, foi-se o livre arbítrio para o mundo das utopias. Mas optar, escolher e abraçar uma religião como norte em nosso caminho como ser humano espiritual, não passa pelo caminho da imposição. Mas infelizmente é a realidade para muitos. Inúmeras pessoas estão em N religiões porque simplesmente foram coagidos, ludibriados, seduzidos por alguém de natureza espiritual não carnal que contou a triste estória de que se não entrasse para abraçar tal fé, sua vida iria pro ralo. De que a causa de todas as suas doenças eram por conta da negação que você mesmo fazia em aceitar tal religião para si. De que a fome, o desemprego que já dura meses, as portas fechadas, é simplesmente uma cobrança para que você entre no caminho que foi escolhido por você mesmo antes de nascer. 
ACREDITEM: a FELICIDADE e ABUNDANCIA não depende de estar na religião A ou B, de cuidar disso ou daquilo, mas de estarmos bem e em paz conosco. Nossa felicidade está dentro de nós e não fora de nós; em religiões, em doutrinas, em crenças ou dogmas religiosos, mas de buscarmos a crença em nós, na fé de que fomos capazes de encontrar dentro de nós, perdidas no meio das incertezas, medos, mágoas e solidão, a felicidade e plenitude. Qualquer que seja a religião nos oferecerá caminhos, meios, remédios paliativos, mas nenhuma delas irá viver ou caminhar por você, ou lhe dará a riqueza, solução de problemas. Elas são um suporte, um auxílio, uma porta para que NÓS mesmos, caminhando com nossas próprias pernas, méritos e deméritos, consigamos entrar nossos tesouros que cada um constrói pra si através de nossas escolhas, pensamentos e olhar pra vida. Elas podem ajudar com que encontremos respostas, nos reconciliemos conosco e encontremos o Deus que habita em cada um de nós. Mas não somos obrigados a seguir e crer nesta ou naquela para isso. Até porque, essa plenitude é o destino inexorável de todos nós. Somos criações divinas feitas para a felicidade, o progresso, o crescimento, a sabedoria, elevação divina e as riquezas. E não para a ignorância, trevas, miséria, infelicidades e desgostos. E todos nós estamos caminhando pra isso. Uns mais rápidos outros mais lentamente. Uns irão sem dar muitas voltas, enquanto outros, ainda persistem e vagar a vagar, passear e passear para, muitas vezes, voltar ao mesmo lugar e ver que nada construiu, além de ilusões, más escolhas e crenças em falsas promessas de riquezas e vida fácil. 
Mas e aqueles que são médiuns? São obrigados a desenvolver? Obrigados não é a palavra. Mas dependendo do nível de abertura mediúnica é aconselhável que esta pessoa busque amparo em conhecimentos mediúnicos para aprender a controlar e equilibrar o que está em desequilíbrio. E isso não está relativo em abraçar religião X ou Y. Mas de passar por tratamentos e processos que equalizará os canais mediúnicos e o orientará a condutas, posturas e pensamentos mais apropriados para um caminhar mais harmonioso entre você, o mundo, as pessoas e sua mediunidade. E ressaltando novamente que MEDIUNIDADE independe de religião, e, portanto, há várias formas de usá-la, manifestá-la e canalizá-la para o bem individual ou coletivo. 
Então voltando novamente em por que estamos? Por escolha sincera, madura e consciente de que é esta a filosofia, crença e religião que tocou sua alma para que ali você estivesse. Por afinidade com o que se comunga ali. Por amor e ligação espiritual. Mas não por curiosidade ou para solucionar os problemas de sua vida por promessas, nem tão pouco porque lhe disseram que era obrigado a estar. 
E para que estar? Para coletivamente buscar o crescimento e elevação da alma entre irmãos que comungam de similares ideais, crenças e filosofia. Para ajudar, somar e contribuir, numa troca salutar e válida para todos os envolvidos ali. Para estar dentro de um seio familiar espiritual e ali ser um meio para se encontrar, descobrir habilidades, descobrir deficiências e tentar melhorá-las. Achar talentos ocultos, olhar pra dentro de si e descobrir afinal, como é maravilhoso e divino, ser quem é e estar numa família que você escolheu em outras e nesta vida para caminharem juntos novamente. Já que não existem coincidências e nem acasos. Todos se unem com seus iguais e semelhantes. É uma lei de atração que não podemos fugir dela. Onde a sua alma se sentir em paz, sentir amada e protegida, ali é o seu lar. 

Por Ana Araújo - Este texto pertence ao acervo do Terreiro de Umbanda Vovó Catarina